Viajar sozinho: porque a experiência muda com a idade
A solidão escolhida nas viagens maduras como fonte de observação atenta, conversa franca e redescoberta pessoal aos cinquenta anos.
Viajar sozinho aos vinte anos é muitas vezes uma declaração de bravata ou uma tentativa precipitada de encontrar uma identidade que ainda não existe. O jovem viajante solitário sente com frequência a necessidade de provar aos que ficaram em casa que está a viver aventuras mirabolantes; teme o silêncio de um quarto de hotel e procura ansiosamente a companhia de outros mochileiros em albergues ruidosos. Pelo contrário, quando um homem de cinquenta anos decide fazer as malas e partir sozinho durante uma ou duas semanas, a motivação é de uma ordem totalmente diferente: trata-se da fruição pura da solidão voluntária.
Viver anos a fio rodeado pelas exigências normais da vida familiar e profissional habitua-nos a estar permanentemente em modo de resposta: responder a e-mails, responder a pedidos de equipas, cuidar das necessidades do lar. Partir sozinho aos cinquenta anos é desativar esse interruptor e recuperar a posse integral dos próprios sentidos.
A observação sem interferências
Quando viajamos acompanhados, metade da nossa atenção está inevitavelmente direcionada para o nosso companheiro de viagem: "Terá fome?", "Estará cansado?", "Gostará deste restaurante?". Quando viajamos sozinhos, cem por cento da atenção fica disponível para o meio envolvente.
Reparamos na tonalidade exata da pedra com que as pontes de Florença foram construídas; escutamos com detalhe a conversa de dois reformados num bistrô em Lião; acompanhamos a trajetória de um barco de pesca a entrar no porto de Aveiro. O mundo ganha uma nitidez cromática e sonora que a distração da conversa permanente costuma ofuscar.
“A solidão na viagem madura não é um vazio a preencher; é uma lente de aumento que revela a beleza secreta dos lugares comuns.” Caderno de Viagens Solitárias
A permeabilidade aos encontros espontâneos
Um casal ou um grupo de amigos viaja dentro de uma bolha protetora. É muito raro que um habitante local se aproxime de um grupo para meter conversa. O homem maduro que viaja sozinho e se senta ao balcão de um restaurante tradicional com um livro ao lado é, pelo contrário, infinitamente acessível.
O cozinheiro explica de onde veio aquele peixe fresco; o senhor ao lado comenta a colheita do vinho da região; o livreiro da esquina sugere um autor desconhecido que retratou aquele vale. Essas conversas breves e sem segundas intenções têm um calor humano e uma verdade inesquecíveis.
O ritmo soberano dos dias
Não ter de negociar a que horas se acorda, quando se almoça ou que rota tomar confere ao dia uma fluidez quase meditativa. Se apetecer passar a manhã inteira num banco de jardim à sombra de tílias centenárias a ler Montaigne, não há ninguém a puxar o braço para ir ver o monumento turístico número quatro.
Conclusão: O regresso à própria companhia
A viagem solitária aos cinquenta anos funciona como um espelho límpido. Recorda-nos de quem somos quando todas as etiquetas sociais caem. E quando regressamos a casa, ao calor dos afetos familiares e da rotina conhecida, regressamos com o espírito desanuviado, com uma tolerância renovada e com um imenso apreço por aqueles que deixámos à nossa espera.